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Gil, da Brasscom, coloca o Brasil no divã em 2008

por Antonio Carlos Rego Gil*/ Especial para InformationWeek Brasil

06/02/2008
Para que o Brasil realize sua vocação de exportação de software e serviço de TI, antes terá que resolver alguns problemas existenciais

Como executivo habituado à lógica rígida da indústria de TI, não sou muito adepto a previsões do tipo "bola de cristal", mas acho que no caso de 2008 é possível antecipar algumas coisas, sem grandes riscos de errar, até porque são deduções mais do que previsões.

As negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC), pelo que temos acompanhado, provavelmente continuarão travadas, por conta dos subsídios agrícolas e da resistência do Brasil em abrir mais sua economia à importação de manufaturados. Talvez alguns acordos bilaterais de menor importância sejam assinados, mas nada que mude dramaticamente o cenário posto em 2007.

Existe, entretanto, um fator que pode (começar a) mudar dramaticamente o cenário de intercâmbio de negócios entre o Brasil e o mundo desenvolvido: a exportação de software e serviços de TI. O Brasil, por vias retas e às vezes tortas, criou ao longo dos últimos quarenta anos todo um contingente de engenheiros de software mais habilitados do que indianos, russos, mexicanos e outros emergentes, para o desenvolvimento de aplicações sofisticadas de gestão de negócios. Tudo isso se deu pelos investimentos feitos por empresários brasileiros visionários, mas também pela hiper-inflação, que gerou mentes mais criativas para soluções de um ambiente ultradesafiador.

Quem acompanha o mercado sabe que há algum tempo, por conta dos altos custos de TI,  em média 5% do faturamento de uma empresa, houve um aumento na demanda por terceirização. Esta demanda abriu uma grande janela para o mercado de offshore outsourcing mundial e a Índia, por competência e visão de mercado, abraçou a liderança neste setor. Hoje, os indianos têm aproximadamente 40% deste mercado.

Índia x Brasil
Esta grande dependência de recursos da Índia: a concentração de mão de obra, a grande diferença de fuso horário, a cultura muito diferente e a conturbação da região, por razões geopolíticas, fazem com que alguns países como os Estados Unidos, o maior comprador mundial deste tipo de serviço, já busquem alternativas. Na minha opinião, por ser um negócio baseado basicamente em pessoas, só existem três alternativas reais: Rússia/Leste Europeu, China e Brasil/América Latina.

Para que o Brasil realize sua vocação de exportação de software e serviço de TI, antes terá que "se deitar no divã" para resolver alguns problemas existenciais. O mercado de exportação de software e serviços é de bilhões de dólares enquanto o Brasil modestamente ainda exporta apenas algumas centenas de milhões. Para um País que tem o oitavo maior mercado interno de TI, por que exportamos tão pouco?

Quando comparamos os preços praticados no Brasil, percebemos a enorme desvantagem em que nos encontramos. Por causa dos encargos tributários e trabalhistas, o custo da mão-de-obra brasileira é o dobro da praticada na Índia. Outro fator importante é a capacitação. Para conseguirmos exportar US$ 5 bilhões até 2010 (meta da Brasscom e do governo), precisamos capacitar 100 mil profissionais no mesmo período. Mas, como capacitar tanta gente em tão pouco tempo?

Acredito que a resposta é, num primeiro momento, aproveitar a onda do offshore outsourcing e desenvolver programadores e analistas que nos possibilitem "surfar" nesta onda. Os programadores podem ser formados em massa e capacitados mais rapidamente por escolas públicas e por empresas, desde que uma grande quantidade de jovens seja exposta ao ambiente digital ainda numa fase muito embrionária. A Brasscom acredita e tem feito investimentos neste sentido que, além da educação pública e privada, também se deve usar a própria tecnologia, como e-learning, para formar os profissionais tanto em TI como em inglês, exigência básica para se atender ao mercado internacional.

O papel da inclusão digital
Talvez o Brasil não consiga, em dez anos, aproximar-se da Índia na formação de engenheiros de software e PHDs, mas pode, sim, até superá-la na formação de mão de obra operacional com conhecimento de negócio offshore outsoucing. Por isso, o acesso em massa às redes de computadores, por meio de escolas, entidades de classe, órgãos públicos, ONGs, associações de moradores, chegando até os lares mais pobres, é fator crítico de sucesso. Tudo isso teria que ser feito pela implementação de um novo "PND da inclusão digital". Empresas e governo já estão engajados para, juntos, desenvolver uma "linha de montagem de jovens programadores".

A população como um todo deve entender que a inclusão digital é importante não só para que os cidadãos participem do mundo de negócios, mas também para formar profissionais que alimentarão a pirâmide de recursos. Estamos vindo de um mundo analógico para digital, de digital para virtual, de virtual para móvel e móvel para pessoal. Em breve, muitos dos meios de comunicação que usamos hoje serão convergidos em um único device: o celular.

Não podemos esquecer ainda da marca TI Brasil. Infelizmente, hoje em dia, quando falamos em Brasil em outros países, as primeiras associações que fazem é com futebol, carnaval, praias e violência urbana. Não estou aqui para criticar o Ministério do Turismo, muito menos o carnaval, mas o fato é que se quisermos ser vistos como uma alternativa para a concentração de mão-de-obra na Índia, precisamos mostrar para o mundo que somos bons também em tecnologia da informação. É preciso ainda fortalecer as empresas locais, pois estamos competindo com empresas altamente capitalizadas.

A Brasscom, associação de empresas de TI criada para fomentar a exportação de software e serviços de TI, acredita fortemente no potencial brasileiro. Nosso objetivo, porém, não é só ajudar as empresas a aumentarem seu faturamento com exportação de softwares e serviços de TI, mas ajudar o Brasil a se tornar um dos três centros de tecnologia da informação do mundo. Para isso, temos competência de sobra, mas este é apenas um ingrediente do bolo. Só quando acordarmos para o potencial econômico e estratégico dos serviços de TI é que conseguiremos assar o bolo e saboreá-lo.

Este artigo faz parte de uma série especial, na qual especialistas em TI e telecom antecipam os principais acontecimentos do ano.

* Antonio Carlos Rego Gil é presidente da Brasscom, Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação



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