Aos poucos, a Ceitec S.A começa a mostrar ao que veio. Em anúncio feito nesta terça-feira (21/07), o presidente da companhia, o alemão Eduard Weichselbaumer, apresentou uma família de chips, baseada na tecnologia de RFID, que poderá ser utilizada na identificação de veículos e cargas. Trata-se de apenas uma das frentes que a fabricante pretende atuar. Bastante otimista com o andamento das pesquisas e com as possibilidades de negócios que surgirão por meio de regulamentações federais, a empresa acredita que, já em 2010, será autossustentável.
De acordo com Weichselbaumer, a identificação por radiofrequência é um mercado mundial de US$ 8 bilhões, com taxas de crescimento entre 30% e 40%, que tem muito a ser explorado, sobretudo no Brasil. Por aqui, aliás, uma das apostas da companhia está no projeto do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), que prevê uma espécie de placa eletrônica para a frota de veículos nacional. Com o sistema implantado, ficaria fácil a identificação de um automóvel e saber se os impostos estão em dia. Ou, em caso de roubos, facilitaria a localização.
O executivo garante que, assim que a norma for aprovada (existe uma expectativa para que isso ocorra até o fim deste ano), o produto tem condições de ser fabricado. O chip desenvolvido possui três divisões: antena, bloco analógico e bloco digital. Este último viria com o protocolo, as informações de determinada regulamentação. E é apenas esta parte que está pendente. Ou seja, assim que o governo regulamentar a questão, o protocolo será liberado e o chip passa a ser produzido em Porto Alegre (RS). "É um mercado de alto volume e a fábrica tem capacidade, operando em turno máximo, de produzir até 100 milhões de unidades por ano", afirma Weichselbaumer.
Outro projeto que deve movimentar este setor no País é o que prevê uma identificação única para os brasileiros. Seria como um RG eletrônico. Conforme explicou Augusto Gadelho, Secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, isso já está em discussão no governo, tendo participado do debate inclusive a Polícia Federal e o Ministério da Justiça. "Vamos preencher nichos e a RFID é muito grande. A Intel nos procurou para saber o que seria feito na Ceitec e torceu pelas atividades, já que [ela] não entraria neste setor por não ser o core business", afirma Gadelho.
Aposta nacional
Estatal com fins lucrativos e fundada em 2008, a Ceitec é, na visão de Gadelho, "a jóia da coroa no investimento que o governo fez para reativar o setor de semicondutores no País". Em quatro anos, foram investidos R$ 400 milhões na construção da fábrica, como ressaltou o secretário. A unidade é a segunda maior do País, perdendo apenas para o parque da Freescale. Os equipamentos para a divisão de manufatura foram doados pela Motorola ao governo do Rio Grande do Sul, que os repassou ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
Gadelho e Weichselbaumer reconhecem essas máquinas não representam a tecnologia de ponta, mas acreditam que serão suficientes para que a empresa possa crescer em escala, já que ainda há um mercado muito grande que depende dos produtos fabricados dentro do que essas estruturas podem oferecer.
Além de RFID, a Ceitec focará seus esforços em comunicação wireless, e Weichselbaumer citou o WiMax como uma das possibilidades de foco, e Digital Multimídia, onde entra os modulares de sinal para TV digital.
A sede criada na capital gaúcha tem capacidade para 250 funcionários e, até o fim deste ano, a meta é chegar a 180 empregados, sendo 120 projetistas, alocados na área de desenvolvimento, ou design house. Os profissionais que já estão no local trabalham no na criação de produtos, além de estarem envolvidos nos seis projetos que a companhia conquistou.
Um deles é na área de rastreamento de gado. O produto desenvolvido para este fim na Ceitec ficou bem mais em conta do que é ofertado no mercado internacional. "Um importado sai por R$7 e conseguimos produzir por R$ 3", comparou Weichselbaumer. "Queremos produtos que possam competir em preço e qualidade", acrescentou.
A meta do alemão é registrar entre cinco e dez patentes por ano. Para Gadelho, a Ceitec "é um dos resultados mais concretos" de tudo o que vem sendo feito na esfera federal para a área de tecnologia.